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Blogando

Primeira página

[17-09-2009] | Marta Botelho
Esta é a indescritível primeira página do Jornal de Notícias de hoje: ver imagem. Nela aparece, em primeiro plano, um dos feridos no acidente que ocorreu ontem em Penafiel (a jovem com a cabeça envolta numa ligadura). Em segundo plano surge o inenarrável: a carrinha onde seguiam as sete jovens vítimas e, sentadas no lugar do condutor e do passageiro, duas das vítimas mortais, na exacta posição em que ficaram após o acidente, envoltas em poças de sangue.

O que parece inacreditável não é o facto de alguém ter fotografado o momento. Ao fotojornalismo devemos (e agradecemos) a denúncia de muitas situações e a perpetuação de muitas imagens que ninguém deverá esquecer. O que choca é o facto de esta fotografia - especificamente esta fotografia - ter aparecido na primeira página do jornal.

Imagens do género são geralmente usadas para denunciar situações, para fazer alertas, para mostrar aquilo que às vezes as palavras não são capazes de concretizar. Neste caso, questiona-se o que se pretende transmitir. Se é o horror do acidente, para tanto bastaria uma imagem dos veículos, suficientemente danificados para dar a entender a gravidade e a proporção do embate. Mas não. Estão lá também os corpos ensanguentados de duas das vítimas mortais. Pergunta-se: com que propósito?

Esta primeira página do Jornal de Notícias (bem como esta ligação para a página online do jornal, onde esta e outras fotografias do acidente podem ser vistas em maior resolução) evidencia total desconsideração pela tragédia que constituiu este acidente, particularmente lamentável pelo facto de as vítimas serem todas muito jovens. Essa desconsideração não tem que ver com a dor dos familiares, mas sim com a insensibilidade demonstrada pelo uso de uma imagem onde aparecem duas vítimas mortais ainda encarceradas, o que acaba por redundar numa instrumentalização daqueles dois seres humanos que ali aparecem como objectos inanimados, como se de coisa de menor importância se tratasse.

Pergunto-me onde terá ficado o bom senso quando esta imagem do acidente (atendendo a que o jornal tinha outras) foi a escolhida para figurar na primeira página. Na gaveta, certamente.

[Também publicado no blogue voo.inclinado.]

Marta Botelho
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Comentários

Sinceramente, pensei que a imagem fosse pior. Impressiona-me muito mais o título " Das aulas para a Morte" e as fotografias das miúdas com os nomes e as idades. Não gosto nada de obituários. óbviamente o JN não se interessa com a sensibilidade de leitores, trauseuntes que passam pela banca e muito menos familiares e amigos das vítimas.Uma vez conheci uma estudante de cinema que tinha as paredes do quarto alugado forrado com fotografias de bebés e crianças pequenas sem vida. Era um trabalho de fotojornalismo de tema livre, e ela tinha escolhido precisamente aquele. Na altura a minha filha tinha cerca de 2 anos e óbviamente não pude corresponder ao entusiasmo como me mostrava o seu novo projecto. Quase vomitei e tive que sair. Explicou-me depois que alguém tinha de olhar para onde a maioria desvia o olhar, se não eramos invadidos por flores cor-de-rosa e ursos de peluche. Whatever. Nunca mais olhei para ela da mesma maneira.


[18-09-2009]  | Lívia Babo

Nestas coisas de sangue o 'JN' sempre foi muito objectivo - e esta objectividade não está disfarçada com aspas. No meu tempo dos diários nortenhos dizia-se que espremendo-o bem saía sempre sangue. Detestável - mas infelizmente vende muito...


[18-09-2009]  | António Eça de Queiroz

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