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Coordenação: Vítor Coelho da Silva
Mauro Castro
Taxistas são terríveis: reparam em tudo. Alguns, o que é pior, ainda escrevem na Internet!
TAXITRAMAS. A vida vista pelo olhar de um taxista brasileiro. O cronista por trás do volante revelando tristezas, alegrias, neuroses e o que mais surgir entre as quatro portas do seu táxi.
Últimos textos deste/a cronista
O caso do bebum perneta
Foi uma luta colocar o passageiro dentro do carro. Quem me ajudou foi o dono do botequim. Aliás, foi ele quem fez sinal para meu táxi. Só depois que parei é que percebi a roubada. O dono do boteco queria, na verdade, se ver livre de seu embriagado cliente. Para piorar a situação, além de bêbado, o homem não tinha a metade de uma perna. Usava muletas. Como se não bastasse, era o tipo de bebum que não aceita ser ajudado - insiste que está bem: "Não empurra!". Como o bodegueiro não conseguia "depositar" o bêbado em meu táxi, resolvi ajudar. Mesmo porque as muletas já estavam dentro do carro e eu não tinha mais como fugir do problema. Quando finalmente conseguimos afivelar o cinto no passageiro, ele ameaçou vomitar. Puxa o bêbado pra fora! A corrida não era longa. Ele queria apenar ir até o boteco mais próximo "tomar um último rabo-de-galo". Quando parei em frente ao outro bar, o dono do estabelecimento, que estava na porta, não deixou descarregar a mala. Disse que já conhecia a figura e não o queria como cliente. Ofendido, meu passageiro o mandou longe. No próximo bar, por precaução, parei um pouco antes da entrada. Começou então o processo de desova. O bebum não achava o dinheiro. Enquanto me contava uma história sem pé nem cabeça sobre um certo despachante, ele apalpava os bolsos. Tudo o que encontrou foi uma nota de dois reais. Ele falava, falava, procurava por tudo e voltava a puxar a nota de dois reais. Quando finalmente achou uma nota de dez, eu peguei da mão dele, antes que sumisse. Estamos conversados. Depois de deixá-lo agarrado a uma árvore, peguei as muletas e terminei de escorá-lo. Ele ficou ali - firme como palanque em banhado - reunindo forças para ir até o bar e tentando não vomitar no pé que lhe restava.
[18-12-2009] | 0 comentários | ler mais
Proibido para menores
O Beto tem um táxi todo incrementado: bancos em couro, direção esportiva, tapetes personalizados. Um luxo só. Ele morre de ciúmes do carro. Vive brigando com o motorista da noite, que é estilo largadão e não dá bola pra nada. O último acessório que Beto colocou no táxi é um rádio com DVD. Quando ligado, uma tela sai de dentro do aparelho e reproduz a imagem. Uma beleza. Beto tem sempre algum show engatilhado para deleite dos seus passageiros. Só sucesso! Dia desses, Beto contou que estava na ponta quando chegou uma senhora de idade avançada com o neto pela mão. O garoto queria ir no táxi de trás, que era um modelo maior, mais bonito. Beto deixou a passageira à vontade para escolher o carro, mas ela acabou convencendo o menino a embarcar no táxi da ponta. Assim que embarcou, o garoto deitou a cabeça no colo da avó e colocou os pés sobre o banco - no estofamento de couro! Beto, educado que é, procurou um jeito de contornar a situação sem ser indelicado. Resolveu ligar o DVD, para que o menino sentasse para assistir. Parado no semáforo, enquanto o aparelho ligava, Beto virou-se para trás e chamou a atenção do garoto, dizendo que aquele outro táxi que ele queria ir não tinha televisão a bordo. O menino, curioso, levantou-se e grudou o olho na tela. Quando começou a exibição do DVD, Beto ainda estava virado para trás. Ele estranhou a gemedeira que vinha do vídeo. O menino, por sua vez, arregalou os olhos enquanto a vovó parecia não estar entendendo nada. O motorista da noite havia deixado um filme pornô dentro do aparelho!! Nervoso, meu colega disse que custou desligar aquela baixaria. As más línguas dizem que a vovó tem procurado pelo táxi do Beto. Dizem que ela tem vindo sem o neto, e com um estranho brilho nos olhos.
[24-11-2009] | 2 comentários | ler mais
Mais uma de motel
O passageiro chegou ao ponto e embarcou no meu táxi, no banco de trás. Com a discrição de quem está fazendo algo errado, não deu o destino da corrida, apenas foi ordenando que dobrasse à esquerda ou à direita. Quando estávamos passando por um motel, ele pediu que eu entrasse. Na portaria, a menina passou-lhe a chave do quarto 55 e perguntou se alguém viria encontrá-lo. Ele disse que sim. Disse que informaria sua acompanhante pelo telefone. Ela o procuraria pelo número do quarto. Depois de deixá-lo no quarto 55, voltei para meu ponto, que não fica muito longe do motel. Quando cheguei novamente na ponta, uma passageira embarcou. Ela apenas ordenou que eu fosse tocando em frente, sem dizer aonde ia. De imediato, relacionei com a última corrida. Será que eu estava levando a amante do passageiro anterior? A cada nova coordenada que a mulher me passava, minha suspeita se confirmava. Até que, chegando perto do motel, ela mandou entrar. Bingo! Acontece que a mulher passou a corrida toda brigando com o celular, que estava sem sinal. Por isso, ela não tinha conseguido falar com seu amante. Na portaria do motel, percebi que já não era a mesma recepcionista da corrida anterior. E agora? Minha passageira não sabia informar em que quarto seu namorado estava, a nova recepcionista também não, e eu tinha a informação. Então, resolvi intervir. Assim que informei que o homem que ela procurava estava no quarto 55, a mulher tomou um susto. Olhou-me com cara de braba. Afinal, quem eu estava pensando que era? Eu aguardei uns segundos, curtindo aquele momento desconcertante, depois expliquei toda a coincidência. A recepcionista ligou para o quarto 55 e confirmou o que eu estava dizendo. Só então minha passageira relaxou. No fim, ela acabou achando graça e me agradecendo. Não tem por quê.
[23-10-2009] | 3 comentários | ler mais
Corridas para o cemitério
Duas corridas para o mesmo cemitério, mas com passageiros bem diferentes. Depois de certificar-se de que teria dinheiro para ir e voltar, a garota embarcou no meu táxi e mandou tocar até o cemitério João XXIII. Tinha pressa, pois estava matando aula e tinha que estar de volta à escola até o fim do último período, quando seu pai viria buscá-la. Durante o percurso, ela me fazia perguntas sobre o cemitério: se o lugar era perigoso, se conseguiria táxi para voltar, se podia entrar menor desacompanhada. Depois de tirar suas dúvidas, quis saber o que ela faria lá. A garota me disse que sua mãe morrera quando ela tinha quatro anos de idade. Seu pai, então, a mandou para o Canadá, para morar com sua avó. Passados dez anos, ela estava de volta a Porto Alegre. Como estava tendo sonhos com a mãe, resolveu visitar o túmulo, mesmo contra a vontade do pai, que se negava a levá-la até o cemitério. Contou que economizou o dinheiro da merenda para pagar o táxi. Na outra corrida, o passageiro era um homem de meia idade. Estava com a roupa e a cara bem amarrotadas, o cabelo despenteado e a barba por fazer. Tinha uma bandeira do Internacional na mão. Pediu que eu tocasse depressa para o cemitério, pois estava atrasado para o enterro do seu pai, que havia morrido no dia anterior. Ele explicou que o cemitério, por motivos de segurança, fecha à noite. Como o velório seria mesmo interrompido, ele, colorado fanático, aproveitou para ir ao jogo do Internacional. Disse que saiu do estádio muito tarde. Quando caiu na cama, dormiu como uma pedra e acabou acordando atrasado. Meu passageiro não se sentia culpado por ter ido ao jogo. Disse que seu pai o havia ensinado a amar o Internacional. Iam juntos a todos os jogos, viviam no estádio enrolados na bandeira vermelha. Bandeira, aliás, que ele estava levando para por no caixão.
[06-10-2009] | 0 comentários | ler mais
Taxistas anônimos
Uma a uma, as pessoas da reunião levantam-se para dar seus depoimentos. Sou taxista há 24 anos (faz uma pausa, pensativo). Eu era um jovem normal, um adolescente cheio de planos, sonhava em ser desenhista. Cheguei a trabalhar com desenho. Diziam que eu tinha talento, um bom traço, criatividade. Um futuro pela frente. Não sei como é que acabei caindo nessa. Talvez tenha sido influência do meio onde fui criado – vários casos de taxistas na família – ou as companhias erradas, as más influências, não sei. Acho que isso agora não vem ao caso. O fato é que acabei deixando de lado essa minha veia artística e virei um taxista. Tudo começou com uma folga ou outra no táxi do meu pai. Uma trabalhadinha aqui ou ali, para arranjar grana pra balada. Logo não me contentava apenas em tirar as folgas de outros taxistas, queria um táxi só para mim. Quando ficava sem trabalhar na praça, sentia-me angustiado, tenso, irritadiço (síndrome da abstinência). Largar o trabalho de desenhista foi o próximo passo. Acabei virando um taxista em tempo integral. Vendi tudo o que eu tinha, pedi dinheiro emprestado, só faltou me prostituir para comprar meu próprio táxi. Consegui. Tornei-me um taxista de verdade. Passava dias e noites trabalhando. Quase não aparecia em casa. Muitos amigos me abandonaram quando souberam que havia me tornado um taxista. Passei a ser visto com maus olhos. Com o dinheiro do táxi comprei de tudo, desde roupas até minha casa própria. Tornei-me dependente completo da profissão. Cheguei ao fundo do poço. Agora estou procurando ajuda para largar o vício. Sei que não é fácil. Sei que é preciso evitar sempre a primeira corrida. Precisamos ser fortes! A reunião dos taxistas anônimos termina. Todos se cumprimentam e deixam a sala, dispostos a manterem-se longe dos taxímetros.
[03-09-2009] | 0 comentários | ler mais

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Sácristia do Arcebispo

A chamada "rata velha"

Era tão velha que já marcava consultas de ginecrologia.

[23-02-2010] | Arcebispo de Cantuária

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La honestidad como legado de Orwell

¿Por qué Orwell permanece? se preguntaba este domingo un artículo del suplemento de libros The New York Times. Es cierto que pocos escritores han tenido una huella tan profunda en nuestro tiempo. O mejor dicho, deberían tener una huella tan profunda más allá de que algunas de sus expresiones, como Gran Hermano, hayan entrado a formar parte del lenguaje cotidiano. Aprovechando el sesenta aniversario de la muerte de George Orwell (sus obras completas en inglés pueden ser consultadas en un sitio sin ánimo de lucro), el ensayista y periodista británico Geoffrey Wheatcroft reflexiona sobre la ética del autor de 1984...
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Papeles perdidos es un cajón de sastre de la cultura y la creación, elaborado por el equipo que hace cada semana Babelia, la revista cultural de EL PAÍS. Arte, literatura, música, arquitectura, artes escénicas y cine, recomendaciones de fin de semana, tendencias... Como dijo alguien sobre la cerveza de botella y la de barril, "lo mismo, nomás que diferente".

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Depois de uma edição comemorativa dos dez anos de vida à altura dos pergaminhos de qualidade de que já pode gabar-se, o Correntes d'Escritas está de volta para a sua 11ª edição, a decorrer entre 24 e 27 de Fevereiro, na Póvoa do Varzim. É bem certo que este ano não se repetirá o número de escritores presentes que no ano passado atingiu o impressionante número de 130! , mas não menos certo é que a organização do evento (honras primeiras para Manuela Ribeiro e Francisco Guedes) se esmerou para voltar a apresentar um programa de actividades de luxo.

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